quarta-feira, 19 de abril de 2017

Transtorno dismórfico corporal


AVISO:
¹. Este é um post difícil de escrever e talvez seja difícil me fazer entender. Então, para deixar as coisas um pouco mais claras, preciso informá-los de que o texto está repleto de relatos de experiências pessoais. Todo o conteúdo do post é voltado para minha relação com a comida e com meu corpo. Você pode se identificar com o que eu direi, e também pode me achar uma doida (afinal de contas, ninguém é obrigado a entender minha mente)!
².  A  publicação contém fotos de terceiros. Procurei esconder o rosto dessas pessoas, pois ninguém merece ter uma foto antiga exposta na internet. 😜

Enfim... vamos lá:

Eu tinha 8 anos quando dois colegas da escola onde eu estudava resolveram me informar de que eu era gorda. Acho que a história começa assim, já que eu não lembro de ter questionado meu tipo físico ou me visto como uma criança gorda antes disso.

Eu, bem gordona (sqn) aos exatos 8 anos. 

Não foi algo pontual, um simples aviso, ou um comentário inocente. Foram dias, semanas, meses, um ano inteiro de massacre, que fizeram uma menina de 8 anos pedir pro pai parar de comprar biscoitos de chocolate.

Eu entre os gêmeos praticantes de bullying. E uma colega aleatória que nunca me defendeu.

Foi com 8 anos que eu parei de usar roupas de alça, mesmo durante o verão do Rio de Janeiro. Foi a partir dos 8 anos que eu deixei minha melhor amiguinha (quase 2 anos mais nova que eu) preocupada comigo, com medo que eu desenvolvesse anorexia – palavras dela, que eu jamais esqueci.

Eu comecei a chorar e sentir vergonha de mim mesma ainda muito novinha. Lembro com perfeição dos comentários dos adultos. “Thalita, você está gorda”, disse a avó de uma coleguinha da minha rua.
Sei que muitas pessoas conseguem lidar com isso numa boa e não desenvolvem nenhum transtorno por conta disso. Algumas emagrecem e pronto. Outras se aceitam e são felizes gordinhas. E eu? Bom... eu emagreci o suficiente pra uma menina da minha idade (e, vamos falar a verdade: eu tive amigos muito legais a partir dos 10 anos).

Ah, a influência da Avril Lavigne! hahaha

 A adolescência chegou e eu fui crescendo. Não consumia muitas besteiras, até porque, meus pais não tinham dinheiro pra me levar ao Mc Donald’s com frequência e nem incentivavam a vida de fast food.
Entretanto, eu nunca mais me vi magra. N U N C A  M A I S.
No ensino médio eu fiz amizade com duas meninas lindas e magras. Uma delas muito abaixo do peso, e eu acreditava que o corpo certo era o dela. O meu era inadequado, gordo. Muito gordo.

Eu e as migas magras.

Nessa época eu pesava entre 45kg e 48kg. Não passava disso. E eu já estava começando a considerar que, talvez, eu fosse uma pessoa magra (até porque minha avó Marly, hoje falecida, VIVIA dizendo o quanto eu estava magra demais pro gosto dela).

Aos 19 eu comecei a namorar e fazer estágio remunerado. A essa altura da vida eu já estava ganhando meu dinheiro e podia usá-lo pra comer coisas gostosas.
Foi uma boa fase. Eu estava feliz. Mas também estava aprendendo a ter uma relação perigosa com a comida: para o final de semana ser perfeito, tinha que ter um lanche. E as coisas foram caminhando assim.
O problema foi quando eu comecei a ver o reflexo disso na balança. Eu sou baixinha, tenho 1,57 de altura, e cheguei a pesar 56kg (aos 22 anos). A essa altura a minha autoestima estava no lixo. Voltou a fase de não usar blusas de alça, voltou o choro, a revolta com o corpo, o ódio de mim mesma. E, estranhamente, parecia que a comida era a válvula de escape para a minha dor. Era como um anestésico, uma fonte de prazer.

Quem já viu essa montagem aqui? 😜

Não preciso dizer que as pessoas (ah! Sempre as pessoas!) desempenharam brilhantemente a função de me fazer sentir ainda pior. E, depois de muitos comentários desagradáveis, resolvi procurar uma nutricionista e, depois de um tempo passado, fazer dieta.
Aí eu já estava muito motivada e perdi MUITO PESO. Foi nessa época que eu escrevi esse post aqui.
Se você já leu o post, deve ter notado a minha intensa preocupação em deixar claro que não tenho transtorno alimentar.  Bullshit!! Minha vida sempre foi um inferno em relação ao meu corpo e, naquela época, no auge da minha realização pessoal, eu jamais admitiria que tinha um problema. Depois desses 8kg perdidos, perdi mais 6 e cheguei aos 42kg.

Eu levei biscoito nesfit e H2O (porque não tem caloria) pra essa viagem.

Quando o pânico de engordar apareceu, eu não percebi de cara. Eu fazia um “dia do lixo” uma vez por mês, mas não me permitia um palito de batata frita nos “dias da dieta”. Parei de comer doces, parei de jantar. Até que um dia eu comentei com um colega de trabalho que eu tinha medo de comer algumas coisas. Ele me ligou um alerta: pediu para que eu lesse a respeito de transtornos alimentares, pois ter medo de comer não era uma coisa normal.

Mas a vida seguiu. Casei. Casei magérrima. 42kg, vitoriosa!



Mas é aquilo, meus amigos... eu casei. Quase todo mundo engorda quando casa. E eu engordei 5kg.
Mais uma temporada de sofrimento começou. Novas crises de choro, autoagressão (mental e física), dor, pânico de ficar gorda de novo, vergonha a cada quilo ganho.
Acho que vergonha é a palavra perfeita pra definir esse processo. Eu queria esconder o fato de estar engordando. E, na realidade, a maioria das pessoas nem percebia que eu estava.

Roupa preta e de manga, de novo. =( 

Resolvi procurar uma psiquiatra. Ela me receitou antidepressivos (que eu nunca tomei por uma série de questões pessoais) e me encaminhou pra psicologia.
Foi aí que eu ouvi pela primeira vez o termo “transtorno dismórfico corporal”.  Segundo a psicóloga, eu não consigo enxergar meu corpo magro. É como se existisse algo, entre mim e o espelho, que distorce a realidade.
Exemplo: eu tenho um SÉRIO problema com meus braços. Tenho uma gordura abaixo da axila que me mata emocionalmente. Foi por causa dela que parei de usar blusas de alça em algumas temporadas da minha vida. De acordo com as pessoas à minha volta, a gordura não é tão grande assim. E eu a enxergo gigantesca.  =/

Até onde eu sei, psicólogos não podem diagnosticar, mas essa foi a única vez na minha vida que encontrei sentido pra todo meu sofrimento com meu corpo. Eu me identifiquei com cada aspecto da condição e hoje entendo bastante o que acontece na minha mente.  Conhecer o problema é o passo inicial para combatê-lo.

Porém eu não continuei a terapia. Não me julguem, eu tenho meus motivos:
1. Existem duas linhas de pensamento em relação à origem de um TDC: a primeira diz que é algo social, relacionado a fatores externos, ou traumas vividos pelo paciente. A segunda afirma que é uma questão bioquímica, ou seja, a pessoa já nasce com a falta de algo no organismo, que a leva a ter essa distorção da própria imagem.
Minha psicóloga era da segunda linha. Ela tentou me convencer de várias formas, que eu devia iniciar o tratamento com antidepressivos. E, me conhecendo, eu sei que passei por traumas suficientes pra crer que meu caso não é bioquímico. Eu queria apenas seguir com a psicoterapia.

2. Eu sei, eu poderia ter procurado outra profissional. Só que eu tenho um plano de saúde que deixa a desejar: são 20 minutos de terapia por semana e, embora os psicólogos consigam estender a 30 minutos, a espera acaba sendo infernal. A sala de espera é um horror (sério mesmo) e você passa o dia inteiro lá.

3. Eu não tenho dinheiro pra pagar um profissional fora do plano. Sad but true.

Mas, Lita, como você está hoje?

Hoje eu to feliz com meu ovo de páscoa. -q 

Atualmente eu estou bem. Eu acho.  '-'
Eu ainda tenho crises de depressão por causa do meu corpo, mas são bem menos frequentes.
Eu faço musculação (porque eu gosto) e, atualmente, tenho tentado manter uma alimentação balanceada.
Estou tentando me convencer de que está tudo bem se meu peso aumentar eventualmente.
Eu digo pra mim mesma que tudo bem se eu comer doces ou batatas fritas uma vez ou outra (e não é pecado mortal se isso acontecer durante a semana).
Sigo pessoas na internet, participo de grupos de apoio e sei que isso não substitui terapia, mas me ajuda muito!
Estou aprendendo (a passos de formiga) a aceitar e acreditar nos elogios das pessoas que eu amo.
Sei que exercícios físicos me fazem bem, então eu faço.
Hoje eu consigo controlar os episódios de compulsão e não preciso mais de “dia do lixo”, já que procuro saciar minhas vontades de comer na hora que as tenho (assim eu como porções normais e não “guardo a vontade” pra “dias liberados”, em que comeria um boi inteiro).

Fazendo trilha porque eu AMO, e não porque odeio meu corpo.  😎

Tá, e pra que esse post?
Porque eu imagino que seja muito difícil entender minha cabeça, e eu gostaria de poder auxiliar meus amigos nisso.
Porque eu sei que muita gente pode estar passando pelo o que eu passei e não entende o que acontece na própria mente. Talvez esse post ajude.
Porque eu tenho medo que casos como o meu continuem acontecendo, e que crianças continuem sendo machucadas com mentiras que são ditas sobre seus corpos.
Porque adultos também podem aprender a serem gentis e entender que uma palavra errada pode matar um ser humano. (Literalmente. Tem gente que se mata.)

E eu termino dizendo que, a partir de agora, eu me sinto mais à vontade pra relatar meus progressos. =D
Nos próximos posts eu posso falar a respeito dos meus pensamentos, posso indicar as pessoas que eu sigo e compartilhar com vocês um pouco da minha opinião a respeito da indústria da magreza (sim, é uma indústria).
Eu espero que vocês compreendam que tudo o que eu compartilhar com vocês daqui pra frente a respeito disso, também será uma chance que darei a mim mesma de trilhar meu caminho pra recuperação.
Agradeço muito a paciência de quem leu até aqui. Vocês são demais! 💕