Certa vez eu li que gatos são pacotinhos de amor embrulhados em pelo. Essa é uma das maiores verdades que já vi na vida.
Já tive quatro gatos. Mas hoje a história contada não será da Sagatiba - que vive com meus pais -, nem da Bella - que foi assassinada por um cachorro -, nem do Juca - que sumiu e deixou um vazio no meu coração. Hoje o espaço é todo do Salém.
Era noite de carnaval e meu noivo estava em minha casa. Ele havia acabado de comentar que queria um gatinho, quando ouvimos um miado no quintal.
Um bichinho preto, pequenininho, tinha conseguido entrar. Eu já o tinha visto antes umas duas vezes e, em uma delas, minha amiga disse "se eu tivesse um gatinho preto assim, se chamaria Salém". Lembrei-me disso quando o segurei no colo e, desafiando meu pai, levei-o até meu quarto.
Eu e meu noivo brincamos muito com ele e tentamos deixá-lo na rua de novo. Tentamos. Ele insistia em andar atrás de nós e miava alto por atenção.
Até que meu noivo decidiu: "Se ele não for embora até a hora eu ir pra casa, levo ele comigo". Dito e feito. O Salém ganhou um novo lar.
Besta.
Conforme ele foi crescendo, foi tomando gosto pela rua. É normal que gatos gostem de dar uns passeios (principalmente durante a madrugada), mas o Salém estava ficando baderneiro demais: passava dias fora e, quase sempre que retornava, vinha com um machucado novo. Ele apanhava muito de outros gatos e era difícil mantê-lo em casa. Eu mesma quase nunca o via, nem cheguei a "me apegar" a ele por conta disso.
Certa vez eu estava na casa do meu noivo quando o Salém apareceu depois de dias fora. A sensação de alívio em vê-lo logo foi substituída pelo desespero: ele estava com uma ferida ENORME e profunda nas costas, cheia de bichos.
No consultório veterinário, o diagnóstico: esporotricose. Essa doença de nome feio estava consumindo o Salém.
Foram MESES de tratamento. Cerca de um ano preso em casa, muito dinheiro gasto. Dinheiro, paciência e amor, que meu noivo investiu docemente no Salém. Eu não tinha muito convívio com o Salém, mas ouvi de algumas pessoas que ele deveria ser sacrificado. Confesso que eu mesma pensei nisso, pois via o sofrimento dele. Mas o "pai humano" dele não desistiu e persistiu no tratamento.
Faltando algumas semanas para o meu casamento, o Salém ficou bom. Finalmente a ferida cicatrizou depois de tanto tempo! E bem na hora de mudar pra casa nova.
Seria mentira se eu dissesse que a história termina aqui e nós 3 fomos felizes para sempre.
O início do meu convívio com o Salém na mesma casa foi extremamente difícil. Ele não se adaptava de jeito nenhum: fez xixi em TODOS os cômodos do apartamento (inclusive na minha cama e no sofá), morria de medo de mim e não deixava eu me aproximar de jeito nenhum.
Doía. Eu sabia que gatos são maravilhosos, mas o Salém estava se esforçando para que eu mudasse minha visão sobre alguns. Era triste demais tentar chegar perto e ele sair correndo. Era complicado ter que lidar com as travessuras que não pareciam ter fim. Cheguei a acreditar que ele me odiava.
Certo dia eu acordei com meu marido dizendo "O Salém tirou a mangueira da máquina de lavar e alagou a cozinha. Tive um trabalhão para escoar a água e secar o chão". Que inferno!
Ele precisou sair e eu fui lavar a louça. Quando entrei na cozinha, o cheiro de xixi impregnava o ambiente: Salém também tinha urinado na louça limpa.
Eu quase morri. Passei mal com o cheiro, lavando louça por louça. Fiquei tão nervosa que tive uma crise de choro. Eu quis que ele fosse embora e saí perguntando pra todo mundo se não queria um gato preto.
Meu marido conversou comigo e disse que não queria doar ele pra ninguém. Eu compreendi. Não tinha sido eu que tinha investido tanto no Salém. Não fui eu quem cuidou das feridas dele, não fui eu que recebi amor felino em troca. A decisão não poderia ser minha, eu estava sendo egoísta e malvada.
Embora eu tenha me acostumado com a ideia de que ele nunca ia se apegar a mim, decidi tomar uma última iniciativa: acordei mais cedo que meu marido, tirei o Salém da cozinha, e coloquei mais comida no potinho. Sentei no chão. Imediadamente ele veio fazer carinho em mim, agradecendo.
Fiz isso mais algumas vezes. Dei espaço pra ele, deixei ele se aproximar aos poucos.
Em poucos dias parecia que eu tinha outro gato. Uma "sombrinha" preta passou a me seguir pela casa, especialmente quando estávamos sozinhos.
Agora o Salém é meu chicletinho. Às vezes eu não consigo andar pela casa ou mexer no celular porque lá está ele, pedindo minha atenção. Ele dorme na minha barriga e está o tempo todinho ao meu lado.
"Quer ajuda para lavar a louça?"
As travessuras diminuíram consideravelmente. De vez em quando ele faz xixi no tapete do banheiro, mas eu nem ligo. Só lavo e pronto. E quando ele faz alguma besteira, derruba alguma coisa no chão, eu morro de rir. Ele é engraçado e muito fofinho!
Salenzinho mexicano
Ele é extremamente carinhoso, uma das criaturas mais leais que eu tenho ao meu lado. Quer sempre ficar perto de mim. Quando vemos tv, ele se aproxima e "assiste" com a gente, quando estamos dormindo, ele vem deitar na nossa cama.
Foi por essas coisas - e por todo amor que tenho por gatos de um modo geral - que decidi finalmente fazer minha tão sonhada tatuagem, que foi presente da mesma amiga que escolheu o nome do Salém.
Hoje sim posso dizer que somos felizes para sempre. Aprendi que nós precisamos dar espaço aos nossos bichos, dar a chance deles se adaptarem ao lar e a nós. É preciso demonstrar confiança e segurança para que eles se sintam verdadeiramente seguros e confortáveis com a gente. Os gatos são incríveis! Sorte a minha de ter o amor de um gato preto.
Conta pra mim nos comentários. *-*
Um beijo! Até a próxima.








Eu podia jurar que o Salém era seu....Eles fazem isso por ciúmes, mas que bom que vc soube conquista-lo :)
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